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 Crônicas
AINDA O SUICÍDIO
 

     Com a notícia do suicídio de um policial-militar, em São Paulo, fato testemunhado por uma câmara de televisão, o suicídio volta à baila. Coragem ou covardia? Eis a questão.

      Como em tudo, na vida, não existe o extremismo: ninguém está absolutamente certo nem absolutamente errado. Sabedoria é aprender a fazer concessões como pregou Aristóteles no seu famoso in medio, virtus (no meio, a virtude). Na minha experiência de algumas décadas em clínica médica, posso garantir que o problema, ou fato, não é tão simples como a grande maioria das pessoas julga. A atividade humana mais difícil e espinhosa que existe é julgar, porque julgar é equiparar-se a Deus, mas a um deus que valoriza mais a justiça do que o perdão. Aqui está o espinho. O suicídio pode ser um ato de covardia ou de extrema coragem. Entretanto, na grande maioria dos casos não dá para separar o desequilíbrio emocional - depressão - como fator desencadeante.

      O equivocado Mito do Herói que nos incutiu, desde o nascimento, que para ser feliz é preciso vencer - conquistar, dominar, derrubar, chegar primeiro, levantar mais peso, acumular mais bens - talvez seja o responsável pelo sentimento de derrota que a vida fatalmente nos traz. Querendo ou não querendo, envelhecer é sofrer perdas sucessivas de forças, saúde, alegria, beleza, afetos. (Sem esquecer dos cabelos, da tesão e dos dentes...), até a morte, inevitável, já que um dia, todos os que nasceram deverão morrer. Até o Papa.

      A derrota traz o luto puxado pela mão, com sua escuridão envolvendo a alma sofrida. E ficar deprimido, todos sabem, é perder a vontade de viver, é desistir de lutar. Assim, não é de admirar que a freqüência de suicídios é maior à tardinha, à noite, e nos dias cinzentos, sem o sol - o maior de todos os antidepressivos. É nas noites mais escuras que a depressão se agiganta, sufocando a alma sofredora, nunca nos alvoreceres. Não existe suicídio no esplendor dos arrebóis.

      O suicídio, mais comum entre homens do que mulheres numa proporção de três para um, e que aumenta entre os divorciados, viúvos e solteiros, é a maior das violências e ao mesmo tempo a maior das coragens: o uso da agressividade para autodestruir-se. (O grande Schopenhauer escreveu: "Se não podemos evitar o erro de ter nascido, podemos, ao menos, corrigi-lo, praticando o suicídio").

      O suicídio também é uma ambivalência: querer morrer e também querer viver, ao mesmo tempo, já que toda a morte implica num renascimento, pois é "morrendo que se nasce para a eternidade".

      Gabriela Mistral, a maior poetisa de todos os tempos, no poema Interrogaciones indaga a Deus porque tanta crueldade com os suicidas, negando-lhes o perdão. (Para a doutrina católica, os suicidas são sepultados fora dos cemitérios. E suas almas vão para as trevas do inferno, de onde jamais sairão). Pergunta ela, comovida: "Não há um raio de sol que os alcance, um dia? / Não há água que os lave de seus estigmas roxos? / Para eles fica somente tua entranha fria, / surdo teu fino ouvido, apertados teus olhos?" E não se conforma com Justiça: pede Amor.

      "[...] Assim o homem afirma, por horror ou malícia;

     mas eu, que te tenho sentido, como um vinho, Senhor,

     enquanto os outros continuam chamando-te Justiça

     não te chamarei nunca outra coisa senão Amor! [...]"

     (Interrogaciones - Gabriela Mistral)

     

Eduardo Festugato é colaborador do nosso site desde 17/05/2005 e já possui 52 publicações em nosso Portal nas categorias: Crônicas
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