(Esta crônica foi inspirada num episódio acontecido em Cruz Alta, há aproximadamente quarenta anos. O autor, então estudante de medicina, assistiu o acidente em que um cavalo tordilho negro foi atropelado por um automóvel e teve uma pata fraturada. Foi sacrificado com um tiro de revólver calibre 38, na testa. Dramas assim, jamais se esquece).
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Tordilho negro o cavalo, zaina tapada a potranca, ambos no esplendor dos cinco anos: pêlo fino e brilhante da raça e do milho, galgas estampas de ventres sumidos, longas melenas, cabeças pequenas mostrando o desenho das veias; ventas vermelhas, orelhas parecidas com duas pombas haraganas... E dois olhos bem pretos como azeviche.
Nas tardes cinzentas de chuvisqueiro, suas cabeças triangulares assomavam nas janelinhas das cocheiras, atrás da oficina de pintura: dois miseráveis cubículos de chão batido, escuros como a boca dos velhos, acanhados e baixos – velha arca de madeira podre guardando valiosos dobrões de ouro; toscas gaiolas de taquara prendendo duas inquietas andorinhas.
Nos dias calmos de sol, ficavam horas postados nas pequenas aberturas, fitando o horizonte distante com seus negros olhos retintos, brilhantes como azeviche. Quietos, pareciam sonhar com a liberdade dos amplos espaços abertos, correrias em imensos prados verdoengos, saudosos do vento, das aguadas e dos pastos perfumados de outubro.
No fim do dia, antes de escurecer, pessoas sujas de tinta e de graxa, pelo buçal, os traziam ao ar livre. Vinham como se estivessem flutuando sobre uma nuvem, qual bailarinas de balé, tão leves que pareciam nem tocar o solo com os cascos! Contidos com força por freios de aço, sofrenavam ímpetos de loucas disparadas, cócegas nas patas, loucos para voar.
Um dia, o acidente! O passo de dança do belo tordilho, todo chispa e luz, todo garbo, foi cortado pelo automóvel que, ao fazer uma curva, sem ver, atropela o belo corcel.
A pata quebrada é veredicto de morte, mais tarde executado por uma bala trinta e oito, apagando, para sempre, o brilho daqueles olhos de azeviche.
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DESTAQUE: Os olhos dos cavalos
são olhos de poetas
que vivem sonhando
com lonjuras e infinitos...